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sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

HOMEM - PÃO



Talvez uma espécie de antropofagia às avessas. É assim a intervenção de Tatsumi Orimoto em si mesmo, o criador do "Bread Man". Ele apresentou sua criação no evento de abertura de sua exposição no Masp hoje. Tratava-se de uma refeição tradicionalmente japonesa para convidados, imigrantes e descendentes.

A exposição "O convívio social aos olhos de Tatsumi Orimoto" contém mil fotografias, 160 desenhos inéditos e 10 vídeos do artista e estará aberta ao público entre 11 de janeiro e 06 de abril, em meio às comemorações do Centenário da Imigração Japonesa.



A idéia original do "Bread Man" é fazer uma representação do homem ocidental, que culturalmente tem o pão como símbolo de alimentação, devido à origem judaico-cristã.
O homem -pão já esteve em muitos lugares do mundo e as fotos deste personagem também fazem parte da exposição.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Geléia Geral brasileira *



Minha coluna tem o objetivo de relacionar comida e cultura e durante todo o semestre eu busquei selecionar o que de mais reconhecido há na literatura, na música, nas artes plásticas, no cinema que abordem o tema.

Hoje quero falar de manifestações populares que são um pouco marginalizadas da “alta cultura”. Aproveitando que estamos entrando no mês de festas juninas, quero falar sobre a música nordestina, o forró e suas variações.

São gêneros genuinamente brasileiros e apesar de toda a questão que envolve a cultura de massa, não dá pra discordar que muitas bandas e grupos têm nomes criativos até para a culinária: Limão com mel, Mastruz com Leite, Caju e Castanha, Caviar com rapadura, entre tantos outros.

A gente sempre acha que a grama do vizinho é mais verde, mas em outros lugares (e estilos) o fenômeno também acontece. Red Hot Chilli Peppers, The cake, Pearl Jam, são exemplos de inspiração alimentícia na música. Gosto não se discute, mas como diz a letra da canção “você não samba, mas tem que aplaudir”**, afinal isso é Brasil.


Lívia Lima posta todas as segundas na coluna Cultura. Como muitos sabem ela é defensora do forró, do Calypso e de outros estilos musicais tupiniquins. E gosta de Pearl Jam e Red Hot também.
* Geléia Geral é título de uma música de Gilberto Gil.
** trecho da música A Batucada dos Nossos Tantãs do Fundo de quintal.

Lívia Lima posta todas as segundas-feiras na coluna Cultura, e também está prestes a aderir ao "clima de férias" que paira no ar...

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Pão da paz

Especial Semana do Pão


Quem foi à Bienal de São Paulo do ano passado pode ver muitas obras onde a comida era o principal tema. Dentre elas estava a instalação de Jaroslaw Kozlowski, “Untitled World – Utopian Version” (Mundo Unido – Versão utópica).

É uma instalação simples. Trata-se de uma grande mesa, coberta com uma toalha branca e com cerca de 70 a 80 de pães, cada um portando a bandeira de um país.

A imagem e o nome da obra propõem uma compreensão imediata. O objetivo do artista era simular um mundo de paz, onde os países não entrassem em conflito e todos pudessem compartilhar o pão, forte símbolo de comunhão e confraternização.

O tema da Bienal 2006 foi “Como viver junto” e a maioria das obras expostas refletiam, ora criticando, ora com propostas, sobre a forma como são estabelecidas as relações humanas na nossa sociedade.

A mesa é o espaço da convivência essencialmente. Os pães todos iguais e simetricamente distribuídos mostram que os países deveriam deixar de lado as diferenças e aproveitar o que têm em comum, em busca de um mundo mais pacífico.

Infelizmente, como o próprio artista define, essa é uma versão utópica. Mas ao menos na arte é ainda possível. Quem sabe a obra suscite no público uma fome de paz no pão nosso de cada dia.

Por Lívia Lima

Livia Lima posta todas as segundas-feiras na coluna Cultura e esta semana, por falhas técnicas, não pôde assinar sua postagem.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

“A felicidade pelo estômago”


Camilo Castelo Branco é famoso por ser dentre os escritores portugueses, o que mais escreveu novelas, dentre elas “Amor de Perdição” e “Amor de salvação”. Um de seus livros, pouco conhecido, mais um dos mais irreverentes ao se pensar em romantismo é Coração, cabeça e estômago, de 1862.

O livro conta a história de Silvestre da Silva, contada através de manuscritos escritos por ele que foram encontrados por seu amigo, o “editor” dos textos, que já antecipa no preâmbulo: “Os manuscritos de Silvestre careciam ser adulterados para merecerem a qualificação de romance”. Trata-se de metalinguagem.

A obra é toda uma sátira aos costumes da época, e sobretudo à instituição social do casamento. Silvestre divide sua biografia em três partes do corpo: o coração, fase de sua juventude onde ele conta a história de sete mulheres com as quais se envolveu, dentre as rejeitadas e as bem vistas pela sociedade.

Na cabeça é mostrada a tentativa de Silvestre em se tornar um homem público, a serviço do jornalismo. Mas ele se envolve em várias intrigas. Silvestre faz muitas críticas a respeito da sua época, que também vale para os dias atuais: “há uma sociedade que não tem obrigação de ser outra coisa, logo que é elegante”. Mas nesta parte ele descreve também aventuras amorosas.

Por fim após uma vida errante e fracassada, Silvestre conhece Tomásia, uma mulher do campo que lhe conquista por seus dotes culinários. Silvestre se casa por conveniência e adota uma filosofia de vida baseada na comilança e na concentração de todas as suas atividades no referido órgão. A sua idéia abolia a vaidade, o reconhecimento social e também as paixões da cidade grande, para se abster do pensamento moderno complexo e voltar à simplicidade do campo.

O editor-personagem conta que o Silvestre chegou a escrever manuscritos intitulados “A felicidade pelo estômago”. Mas Castelo Branco não é o portador dessa ideologia, trata-se, como tudo no livro, de uma sátira. No fim Silvestre morre de “caquexia, resultante da imobilidade, e cansaço das molas digestivas”.

Críticas à parte, o fato é que este bizarro personagem pode lá ter sua razão. Segundo ele “Todo o estômago, bem regulado, produz um gênio”. Mas o que o autor mostra é que não encontramos sentido em nenhum deles:
“Cabeça e coração senti sem vida,
No estômago busquei uma alma nova
E encontrá-la pensei ... Crença perdida!”

Lívia Lima posta todas as segundas-feiras na coluna Cultura

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Fome de arte!!!


Escrevo neste blog sobre gastronomia, mas hoje resolvi mudar. Falarei de algo que caminha paralelamente a ela, a arte.

Constantemente ouve-se dizer que o ser humano “come com os olhos”. Essa frase típica traduz o que realmente sentem os grandes mestres gastronômicos, que se preocupam com a beleza na apresentação dos alimentos, inovando cada vez mais nas decorações de seus pratos.

E se a arte está na culinária, por que a gastronomia não pode influenciar a arte?
No decorrer da história podemos ver, que tanto em quadros, esculturas, instalações, e até músicas os alimentos não são meros figurantes, têm seus significados, que transmitem a cultura, os hábitos e demais informações de uma época e/ou lugar, além de carregar o que o autor da obra quer passar.

Nesse sentido, há quarenta anos o artista espanhol Antoni Miralda trata da comida e de seus rituais, buscando, por onde passa, conhecer a cultura do lugar através de seus sabores. Tendo a língua (o órgão do paladar e da fala) e o sabor (que nos provoca lembranças e emoções) como pontos principais em suas obras, Miralda visa retratar a identidade cultural tanto individual como coletiva de um povo, unindo a arte ao comestível.

O artista já passou pelo Brasil em duas edições da Bienal de São Paulo, a 17ª, em 1983, e no ano passado na 27ª. Nesta ultima trouxe uma instalação ainda em andamento, a Sabores e Línguas, que segundo ele é coletiva, pois conta com a participação dos espectadores, em um quadro em que se pode escrever o que quiser, e na confecção de pratos, feitos por inúmeras pessoas dos diferentes países pelos quais passou. A obra ainda conta com fotos de inumeros lugares e tipos de alimentos, encontrados em feiras, mercados, restaurantes e ruas, como “metáfora da cidade”.

Não há uma data prevista para o término da obra, já que o autor quer conhecer um pouquinho de cada cultura e transmiti-las através da arte. É um aficionado por comida!Por isso, a fim de desenvolver laboratórios pelo mundo, Miralda criou o Archivo FoodCultura, e por ter a consciência de preservação das culturas na era da globalização criou o FoodCulturaMuseum em Barcelona, que ainda não tem espaço físico definido, mas só pela Sabores e Línguas, já possui acervo pra tanto.

A proposta do museu é, na verdade, ter um espaço para reunir e mostrar objetos e elementos que fazem parte da iconografia de um povo e que merecem ser tratadas como obras artísticas. No entanto não como museus tradicionais, mas como espaço para “sentar em volta e degustar”, interagir, contribuir, fazendo prevalecer noção de comida como arte como elemento antropológico que é.

Tratar do alimento como cultura, como arte, como componente ao mesmo tempo individual e coletivo é também a proposta desse blog de esfomeadas. Esfomeadas sim, mas não só de sabor.

http://diversao.uol.com.br/27bienal/entrevistas/textos/ult4026u14.jhtm

Obs: Imagens de pratos da instalação Sabores e Linguas na 27ª Bienal de SP. Sugiro que você clique nas fotos para ver melhor o conteúdo dos pratos.

Lívia Lima posta todas as segundas-feiras na coluna Cultura, mas hoje cedeu seu espaço para a Talita viajar nas idéias do Miralda

Talita Silveira posta todas as quintas-feiras na coluna Gastronomia, e finalmente encontrou uma pessoa que é mais fanático que ela pela relação comida/cultura .

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Do cult ao kitsch



Continuando no tema anos 80 da semana passada, o texto de hoje é para todos aqueles que cultuam a “década perdida” com nostalgia da infância.

Para quem adorava (e ainda adora) filmes, seriados e desenhos tais quais “Os caça-fantasmas”, “Punk, a levada da breca”, “Caverna do dragão” provavelmente se lembrará também de uma turminha de amigos que enfrentavam altas aventuras: Os Goonies.

O filme (The Goonies, EUA, 1985) conta a história de um grupo de garotos – Mikey, Bocão, Bolão Dado, Brand, And e Stef - que tentando salvar o condomínio onde moram, que está prestes a ser demolido por causa de dívidas, partem em busca do tesouro perdido do pirata Willy Caolho, que faz de tudo pra atrapalhar os objetivos deles.

Os meninos encontram um grande amigo que os ajuda nessa aventura: Sloth, da família dos Fratelli (e talvez primo distante do Corcunda de Notre Dame), uma figura estranha, mas com bom coração. Sloth era um chocólatro compulsivo e pedia chocolate toda hora.


O personagem do filme dirigido por
Richard Donner, com roteiro de Steven Spielberg e Chris Columbus, junto com a música tema de Cindy Lauper marcou o público. Sua fala se eternizou na história do cinema, e também na memória das crianças da época: “Chocolaaaaate”.

Lívia Lima posta todas as segundas-feiras na coluna Cultura, e estes dias anda muito "nostálgica"...

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Fome de Viver


Esse é o título em português do filme “The hunger” (EUA/ Inglaterra - 1983) que está em cartaz no Cinusp Paulo Emílio até sexta, como parte da mostra Para Gostar de Cinema: Anos 80.

Apesar do título ser atrativo a história não se refere a comida, e sim a sangue. Inspirado em um livro de Whitley Strieber (de "Communion"), trata-se da história de um casal de vampiros (que estranhamente usam facas ao invés de dentes) que através do sangue humano garantem a imortalidade.

Entretanto, o esposo de Miriam (Catherine Deneuve), o vampiro John (interpretado por ninguém menos que David Bowie) sofre um distúrbio e passa a envelhecer. Ele procura então a ajuda da doutora especialista Sarah (Susan Saradon), que passa a se envolver fortemente na trama formando o triângulo amoroso bissexual que causou polêmica na época.

O filme dirigido por Tony Scott foi indicado ao prêmio de Melhor figurino e Melhor pela Academia de Ficção-Científica, Fantasia & Horror em 84. A imortalidade do amor é um dos temas centrais da história, mas são os vampiros que fazem do filme um ícone da década de 80. Apesar de o apetite ser um pouco diferente, toda fome deve ser respeitada.

As sessões acontecem nos dia 2 e 3 às 19h e no dia 4 às 16h. O Cinusp se localiza na colméia favo 04 na Cidade Universitária. Mais informações pelo telefone 3091 3540. A programação completa da mostra está em www.usp.br/cinusp.

Livia Lima posta todas as segundas-feiras na coluna Cultura

segunda-feira, 23 de abril de 2007

BRASIL MOSTRA A TUA CAchaça

Especial Semana da Cachaça

Essa semana, me abstenho de falar sobre cultura, porque cachaça é um elemento cultural por si próprio. Mostrarei apenas um texto de nosso maior cronista, Rubem Braga, a respeito de nossa maior bebida...

A cachaça também é nossa

Um dia apareceu um deputado com um projeto de lei proibindo em todo o território nacional o fabrico, o transporte, a venda, a compra e o uso da cachaça. Havia penas de multa e cadeia.
Não quero lembrar aqui o nome desse parlamentar infeliz. Ele falava, por exemplo, em nome da higiene. Não se lembrou de que sua lei obrigaria a gente pobre a beber álcool com água, ou sem água – que é a primeira coisa que qualquer sujeito da roça ou qualquer empregada da cidade faz quando não tem cachaça à mão.

O Brasil é o único país do mundo que não leva a seria a sua bebida nacional. Embora seja um industria totalmente brasileira (ou será que uma dessas multinacionais já comprou alguma grande marca?) com uma enorme importância econômica, e que funciona em milhares e milhares de municípios, a cachaça não é levada a sério. O candidato a algum cargo público que falar em algum projeto a respeito dessa indústria será logo alvo de piadas sem fim.
Uma vez um amigo meu foi nomeado presidente do Instituto do Açúcar e do Álcool. Conversando com ele, defendi a conveniência de estudar uma política nacional da aguardente; até então o Instituto ou ignorava a aguardente ou apenas tomava medidas para diminuir seu fabrico em favor de outros subprodutos da cana. Por que não estudar seriamente o problema da aguardente de vários pontos de vista, desde o da saúde pública até o da exortação? O bom homem me olhou desconfiado, como quem diz: esse Braga tem cada idéia! Depois comentou com um amigo comum a minha “piada” de cachaceiro...
(...)
Uma associação de produtores, amparada pelo Governo, poderia dar dignidade à industria da cachaça, estabelecendo padrões de idade e qualidade (como se faz em outros países com o uísque, o conhaque, o vinho etc.), que teriam de ser respeitados, punindo-se severamente as fraudes. Só depois disso poderíamos pensar seriamente em exportação.
Mas qual! O Governo ignora pudicamente essa imensa realidade nacional que é a cachaça – a não ser para lascar impostos em cima ou proibir a venda aqui ou ali dentro de certos horários. E já estou a ouvir daqui o comentário daquele meu amigo que foi presidente do I.A.A, se chegar a ler esta crônica:
- O Braga quer salvar o Brasil com a cachaça...

Sim, cachaça faz mal, e quanto mais, pior. Mas foi com a cachaça que o brasileiro pobre enfrentou a floresta e o mar, varou esse mundo de águas e de terras, construiu essa confusão meio dolorosa, às vezes pitoresca, mas sempre comovente a que hoje chamamos Brasil. É com essa cachaça que ele, através dos séculos, vela seus mortos, esquenta seu corpo, esquece a dureza do patrão e a falseta da mulher. Ela faz parte do seu sistema de sonho e de vida; é como um sangue da terra que ele põe no sangue.

BRAGA, Rubem. As boas coisas da vida. Rio de Janeiro: Editora Record, 1988.

Lívia Lima posta todas as segundas-feiras na coluna Cultura

segunda-feira, 16 de abril de 2007

La recherche continua...

Continuando no tema literatura francesa da semana passada, daremos um salto da Idade Média para o século XX, para falarmos de Em busca do tempo perdido (À la recherche du temps perdu) de Marcel Proust.

O romance é sem dúvida, um dos mais consagrados clássicos da literatura, daqueles que os críticos afirmam que não se pode morrer sem ler. Eu confesso que ainda não li nenhum dos sete volumes que formam a obra, o que me limita a comentá-la superficialmente.

Bem, podemos resumi-la grosseiramente, como a história de um homem que revivendo seu passado, conta a sua vida e a de outros personagens. É um típico romance do século XX, onde o discurso se sobrepõe aos fatos e ações na narrativa, assim como Ulisses de Joyce.

E onde entra a comida? No primeiro volume - “No caminho de Swann”- durante um lanche, Proust (trata-se de uma espécie de autobiografia) molha no chá uma “Madeleine”, que o faz lembrar-se de sua infância e a partir daí ele resgata a memória e analisa a sua vida.


O biscoito provoca uma epifania no personagem que diz: "Cessara de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria?". E a partir disso a “busca” começa.

O que o autor nos faz perceber é que a partir de um aroma ou do paladar podemos resumir momentos, sentimentos, relembrar histórias e enfim resgatar o que outrora estava esquecido. Nos mostra o poder da comida na vida, e na arte, já que é a partir de uma simples combinação de chá com biscoito que Proust cria sua obra prima.

Livia Lima posta todas as segundas-feiras na coluna Cultura

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Vive la grand-chère!


A culinária francesa é famosa por ser historicamente a mais refinada do mundo. Mas em se tratando de literatura as coisas não são bem assim. Uma de suas primeiras grandes obras literárias, Gargantua de Rabelais, mostra um outro lado da gastronomia do país.

A obra foi publicada provavelmente entre 1534 ou 1535 e foi uma das percussoras do Humanismo. François Rabelais era um padre que abandonou os votos e foi se dedicar à medicina. Daí a sua preocupação com o que era material, diferindo da cultura católica da Idade Média.

Gargantua conta a história da vida do gigante Gargantua, e de como ele vence a guerra contra os inimigos de seu pai. Mas nas entre linhas, a história é permeada por um rompimento com o pensamento medieval, valorizando o estudo universitário, a cultura greco-latina e, sobretudo as tradições populares.

As personagens realizam ações que antes estavam fora do decoro. O profano ganha espaço na literatura. Assim as pessoas, comem muito, bebem muito e vivem fazendo festas. É uma comilança: la grand-chère! Era o homem abandonando as obrigações religiosas e se dedicando ao culto ao prazer.

O crítico literário Mikhail Bakhtin define a obra de Rabelais como uma carnavalização, onde as ordens sociais e morais se invertem. Sua obra, que foi censurada na época, foi muito importante para a constituição da literatura moderna, mas para a felicidade de muitos, não influenciou o glamour do menu francês.

Livia Lima posta todas as segundas-feiras na coluna Cultura

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Disciplina e transgressão

Especial Semana do Chocolate


Não é somente o referencial alimentício e Johnny Depp que unem os filmes “Chocolate” e “A fantástica fábrica de chocolate”. Apesar de parecerem tão díspares, suas bases são muito parecidas.

Enquanto a Fantástica Fábrica tenta educar, com a mensagem de que crianças desobedientes recebem castigo, Chocolate busca mudar o status quo, no filme personificado pelo Estado e pela Igreja. Mas ambos se baseiam em narrativas infantis, comunicando uma mensagem universal, para todas as idades.

Chocolate é um filme requintado em todos os aspectos, de forma e conteúdo e conta a história de uma mulher, que através de suas místicas receitas, modifica a vida das pessoas de uma vila conservadora.

Pode-se perceber que há elementos lendários - o passado de Vianne, a ligação entre a vida dela e a tradição de sua mãe, o elemento mágico dos ventos do Norte e do próprio chocolate.

A narração é feita ao estilo dos contos-de-fada. A protagonista e sua filha usam capas como as de Chapeuzinho Vermelho, e ela também freqüentemente usa sapatos vermelhos, como Doroty, de O mágico de Oz. Essas comparações remetem às trajetórias semelhante, a questão de se ter um longo caminho a percorrer e os perigos que devem ser enfrentados.

A Fantástica Fábrica também é uma história que, como as tradicionais, procura instruir o público. Com inúmeros artifícios mágicos reconta a história do simples menino pobre, mas de bom coração, único dentre as crianças escolhidas para conhecer a fábrica, que é digno dos prêmios de Willy Wonka.

A segunda versão agrega muito sobre o comportamento atual de crianças e adultos em face ao materialismo, à ganância, à solidariedade. Mas a tecnologia e os efeitos que o tornam ao mesmo tempo tão lúdico e real, anulam a simplicidade da mensagem original do primeiro filme.
Como Chocolate, a Fantástica fábrica também faz muitas referências cinematográficas, como a evidente alusão a 2001 de Kubrick.

O destaque em Chocolate é o paralelo com a história cristã, pois a história culmina na Páscoa, e assim como acontece na história bíblica, a partir do Domingo, todas as coisas se renovam.
É interessante notar que a trajetória de Jesus tem os dois lados: Educar e transgredir, destruir e recriar, derrubar e reerguer. Independente da religiosidade, talvez seja por isso que sua história é insuperável, com ou sem ovo de Páscoa.

por Lívia Lima

Livia Lima posta todas as segundas-feiras na coluna Cultura. Essa semana está ansiosa por seu chocolate...

segunda-feira, 26 de março de 2007

Sobre o só e o além

O nome deste blog faz referência à música Comida de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto. Composta há vinte anos faz crítica aos problemas sociais que até hoje permeiam o país - as diversas carências que as pessoas sentem em suas vidas, literariamente caracterizadas como fome.

A música é marcada por ambigüidade em diversos níveis. O texto divide-se na polaridade individual e coletivo que são claramente marcadas pelo uso do “você” e “a gente”.

A crítica política é a mais evidente ao abordar a questão do mínimo que se reservam e que julgam necessário para a sobrevivência das pessoas. A tese da canção é propor que a gente, o povo brasileiro, quer mais que água e pasto, quer além do essencial.

Em tempos de projetos como o Fome Zero, vê-se que nem o necessário o Estado consegue subsidiar. O apelo da música é um alerta também para a crise da violência – será que maioridade penal ou rigidez no sistema penitenciário são capazes de suprimir as carências que os jovens sentem de educação e cultura, por exemplo?
A mensagem também se torna forte por propor ao ouvinte a questão: Você tem fome de quê?

O tema entra então no núcleo individual, e cada um é livre, para avaliar se adere às reivindicações de a gente, ou se forma suas próprias preferências. Até mesmo porque muitas das fomes coletivas são necessidades próprias daquelas que a sociedade moderna considera ideal para a realização pessoal – dinheiro, prazer, amor.

A reflexão pode caminhar para dois sentidos: o que a comida é para mim? Quando ela me alimenta biologicamente e quando psicologicamente? E o que é comida para mim, já que se percebe que a gente quer atender a diversas fomes.

A música carrega em si princípios que regem a constituição da nossa sociedade contemporânea, os desejos individuais e contraditoriamente, os resquícios dos valores coletivos. Por isso comprova–se que tanto em níveis textuais, como também semânticos, a ambigüidade é fundamental para compreender a complexidade do tema, tão bem demonstrada pelos autores.
“Desejo, vontade, necessidade” - são estas as palavras associadas pelos Titãs à música em sua versão acústica (Acústico MTV 1997). O propósito de se falar sobre este tema é justamente tirar a alimentação da simples questão de necessidade. A comida é um elemento social, cultural, psicológico, biológico, fisiológico, enfim é literalmente a materialização ideal da antropofagia,mas esse é um outro assunto.

Por Lívia Lima

Lívia Lima posta todas as segundas-feiras na coluna Cultura