segunda-feira, 4 de junho de 2007

Geléia Geral brasileira *



Minha coluna tem o objetivo de relacionar comida e cultura e durante todo o semestre eu busquei selecionar o que de mais reconhecido há na literatura, na música, nas artes plásticas, no cinema que abordem o tema.

Hoje quero falar de manifestações populares que são um pouco marginalizadas da “alta cultura”. Aproveitando que estamos entrando no mês de festas juninas, quero falar sobre a música nordestina, o forró e suas variações.

São gêneros genuinamente brasileiros e apesar de toda a questão que envolve a cultura de massa, não dá pra discordar que muitas bandas e grupos têm nomes criativos até para a culinária: Limão com mel, Mastruz com Leite, Caju e Castanha, Caviar com rapadura, entre tantos outros.

A gente sempre acha que a grama do vizinho é mais verde, mas em outros lugares (e estilos) o fenômeno também acontece. Red Hot Chilli Peppers, The cake, Pearl Jam, são exemplos de inspiração alimentícia na música. Gosto não se discute, mas como diz a letra da canção “você não samba, mas tem que aplaudir”**, afinal isso é Brasil.


Lívia Lima posta todas as segundas na coluna Cultura. Como muitos sabem ela é defensora do forró, do Calypso e de outros estilos musicais tupiniquins. E gosta de Pearl Jam e Red Hot também.
* Geléia Geral é título de uma música de Gilberto Gil.
** trecho da música A Batucada dos Nossos Tantãs do Fundo de quintal.

Lívia Lima posta todas as segundas-feiras na coluna Cultura, e também está prestes a aderir ao "clima de férias" que paira no ar...

domingo, 3 de junho de 2007

Apenas um pretexto


Era um sábado. Não tinha sol. Tinha chuva. E pessoas, muitas pessoas. Quando elas se reúnem, tem comida, muita comida... Mas elas preferem as bebidas e que bebidas! Ah, e também a sobremesa, hum... A gelatina.

_ Confraternização! Menina...

_ O que é isso Aurélio?

_ “Ato de confraternizar.”

_ Con-fra-ter-ni-zar?

_ Pode ser: “.Ligar, unir como irmãos; irmanar, ou conviver, ter os mesmos sentimentos, crenças ou idéias de outrem, e ainda, tratar fraternalmente; demonstrar respeito ou carinho, etc.”
_ Hum...Acho que entendi!

Neste dia, eu tive uma confraternização, e em todos os sentidos da palavra. Realmente, vi pessoas unidas, com os mesmos sentimentos e parecendo irmãs.

Tudo isso, graças a um churrasco!

Apenas um pretexto... conversar, dançar, beber, comer...CONHECER quem você vê todo dia, mas não sabe se é vegetariano, se bebe algo com álcool, se brigou com namorado, se comemorou o aniversário, se tem um namorado mala, se sente algo a mais por você, se ainda lembra como se brinca de barra manteiga, se sabe a coreografia da Ivete Sangalo ou inúmeras outras coisas que desconhecemos.

O “se” não existe...

Claro que é impossível conhecer intensamente 50 pessoas em um dia, mas em cada confraternização você descobre um pouquinho a mais sobre o outro, e lembrará-se disso, pelo resto de sua vida!

E que venham mais churrascos, mais bebidas, mais confraternizações...

Sabrina Machado escreve no blog Palavras Cifradas e até hoje não encontrou quem pegou sua cerveja... A Coluna Viagens na Maionese é postada todos os domingos

quinta-feira, 31 de maio de 2007

O mundo dos pães!

Semana Especial do Pão

Quando penso em pão penso em um mestre. Um que marcou minha infância (assistindo Note e Anote, hehe), um que faz parte do meu cotidiano hoje, sendo fundador um dos lugares mais freqüentados por mackenzistas. Um que conseguiu se imortalizar em um símbolo que carrega tanta informação, e que agora remete também a Benjamin Abrahão.

O padeiro tornou-se ícone na cidade, suas padarias também. Um homem simples, que lutou muito para chegar aonde chegou, alugando forno pra vender pão na feira, dormindo em sacos de farinha na padaria. Um mestre em fazer pão, um mestre em simpatia, um mestre em criatividade!

Quem não viu o encanto dessa figura nos programas de TV perdeu, mas quem tem o prazer de desfrutar de seus quitutes, hoje confeccionados sob os comandos de seus filhos e netos, dentre eles Felipe Benjamin Abrahão, que coloca a mão na massa como o avô fazia, pode sentir o gostinho da herança que deixou.

Mesmo com novidades, a padaria ainda segue receitas criadas por seu fundador, o controle de qualidade é rigoroso, assim como fazia Benjamin, os pães tem massas deliciosas e leves, os recheados esbanjam no conteúdo, não são como os de vento que vemos por aí, não se ouve o “opa! Cadê o recheio?”. Vale a pena conferir!

“Todos os dias, na hora do café da manhã, deveríamos pensar nos padeiros e dedicar-lhes uma palavra de ternura, antes de levarmos o pão À boca, antes de umedecê-lo em nossa saliva e incorpora-lo ao nosso sangue.

Os padeiros são gente simples e boa.(...) Os padeiros são, pois, aqueles que dão formas apetitosas e simples as espigas que a terra produz.

As padarias perfumam o mundo (...) Com o vento viaja o alento do pão, o aroma que se desprende da boca do forno, recobra seu original calor da terra.

Nas padarias, como nos dias de verão há Sois grandes e vermelhos, que nos pães acumulam calor para o inverno. Os padeiros vêm de muito longe, humildes, mais firmemente. Vão para o futuro, para uma manhã em que o trigo alcançará para todos os homens, e as semanas cresceram como espigas.”

Carlos Castro Saavedra

Padaria Mundo dos pães -Rua Maranhão, 220,Higienópolis, 3258-1855 www.benjaminabrahao.com.br.

Talita Silveira posta todas as quintas-feiras na coluna Gastronomia

quarta-feira, 30 de maio de 2007

O pão nosso de cada dia....

Semana Especial do Pão

Presente em nossa cultura desde a antigüidade, o pão está repleto não apenas de simbologias quanto de curiosidades em sua longa história.

No Egito Antigo o pão era utilizado como forma de pagamento: um dia de trabalho era recompensado com três pães e dois vasos grandes de cerveja (há quem preferisse só o último produto, mas esse é assunto para um outro post..rs)

Já na Europa o pão era tanto presente de casamento, quando uma mãe oferecia a sua filha que se casava um pedaço de pão caseiro, por acreditar que assim a filha seria capaz de fazer um pão tão bom quanto o de sua mãe, como também era um fator de discernimento da classe social a que cada um pertencia.

Diferenciado apenas pela cor do pão, os consumidores de pães claros, brancos, eram tidos como membros da classe alta, enquanto os consumidores de pães escuros eram automaticamente considerados como sendo membros de classes baixas.

O curioso é que nos tempos modernos essa definição se inverteu, pois os pães escuros tornaram-se um produto mais caro, em boa parte em seu teor nutritivo, um pouco maior que o encontrado nos pães brancos, consumidos por pessoas com menor poder aquisitivo.

Rosangela Sousa escreve todas as quartas-feiras na coluna Curiosidades, e esta semana pede desculpas aos leitores por não ter escrito um texto muito elaborado. Talvez seja culpa do final do semestre....

terça-feira, 29 de maio de 2007

De olho nas calorias dos pães


Semana Especial do Pão

Faz parte da reeducação alimentar comer pão. E como você vai comer pouco, aqui estão algumas opções existentes nas prateleiras (entre as quais as declaradamente light), suas vantagens e desvantagens, as calorias (por fatia) e alguns recheios, que, bem escolhidos, podem fazer do simples sanduíiche um lanche pouco calórico e bastante nutritivo:

Soja light (56 calorias)
Nova opção do mercado, é tenro, leve e traz os já conhecidos benefícios da soja, com as vantagens de não conter colesterol e ser um campeão em fibras no segmento light.

Integral light (34 calorias)
Recém-chegado às prateleiras, é feito para quem aprecia alimentos integrais: ele conserva intacto o sabor dos cereais nutritivos, é macio, sem casca e tem metade das calorias de um pãozinho francês.

Pãozinho francês (68 calorias, 50 g ou 1 unidade)
Acredite: 1 unidade tem menos gordura até do que o pão de glúten normal. Quando bater a vontade, não resista, mas mantenha o foco - 1 pãozinho só, e pronto!

Glúten (73 calorias)
Está certo: ele não tem muitas calorias, mas, se for escolher, prefira outro - a falta de fibras é uma desvantagem neste tipo de pão.

Centeio (73 calorias)
Você bate os olhos no rótulo e vê que ele tem apenas 73 calorias. Bom, nem tanto. O pão de centeio tem gorduras "camufladas".

Italiano (81 calorias)
Em plena cantina, é difícil resistir ao delicioso pão italiano. Entretanto, modere. 1 fatia média tem uma boa quantidade de fibras e nutrientes bem dosados.

Árabe (82 calorias)
Embora maior do que outros tipos de pães, contém baixa quantidade de gordura. Aproveite para rechear com folhas e proteínas, compondo uma refeição leve e ligeira.

Pão de hambúrguer (172 calorias)

Ihhh! O volume da massa aumenta radicalmente as calorias. Para compensar, que tal comer apenas a metade, sem ter como aditivo uma carne gordurosa?

Olhe o recheio!!

Para substituir um refeição, um sanduíche precisa de proteínas —- neste caso, troque a geléia normal (1 colher de sopa, 48 calorias) ou sua versão light (5 calorias por 25 g) por 1 fatia de peito de peru (41 calorias) por exemplo.

Já se o pãozinho entrar como lanche, veja as escolhas:

Queijo cottage: darling da geração saudável, tem 27 calorias em 1 colher de sopa

Queijo-de-minas: contém proteínas, mas você precisa ficar antenado em relação nas gorduras. 1 fatia (25 g) tem 61 calorias

Requeijão: economize nas calorias comprando a versão light. O tradicional tem mais gorduras do que os queijos, embora some apenas 79 calorias em 1 colher de sopa

Maionese: só para quem não tem preocupações com a balança —- são 175 calorias em 1 colher de sopa, além de cota extra de gordura

Queijo-prato: nem pense em trocar o peito de peru pelo queijo-prato pensando que ambos contém proteínas. Aqui, 1 fatia soma 117 calorias e, mais uma vez, a quantidade de gordura supera a de proteínas

Texto extraído de: http://basilico.uol.com.br/light/coluna_lucila_007.shtml

Jéssica Santos posta (ou deveria...) todas as terças-feiras na coluna Saúde e Nutrição. Mas como esta semana mais uma vez não compareceu (estaria se tornando um hábito??) resolvemos colocar algo que se relacionasse à sua coluna. Sendo assim, divirta-se caro leitor!!!


segunda-feira, 28 de maio de 2007

Pão da paz

Especial Semana do Pão


Quem foi à Bienal de São Paulo do ano passado pode ver muitas obras onde a comida era o principal tema. Dentre elas estava a instalação de Jaroslaw Kozlowski, “Untitled World – Utopian Version” (Mundo Unido – Versão utópica).

É uma instalação simples. Trata-se de uma grande mesa, coberta com uma toalha branca e com cerca de 70 a 80 de pães, cada um portando a bandeira de um país.

A imagem e o nome da obra propõem uma compreensão imediata. O objetivo do artista era simular um mundo de paz, onde os países não entrassem em conflito e todos pudessem compartilhar o pão, forte símbolo de comunhão e confraternização.

O tema da Bienal 2006 foi “Como viver junto” e a maioria das obras expostas refletiam, ora criticando, ora com propostas, sobre a forma como são estabelecidas as relações humanas na nossa sociedade.

A mesa é o espaço da convivência essencialmente. Os pães todos iguais e simetricamente distribuídos mostram que os países deveriam deixar de lado as diferenças e aproveitar o que têm em comum, em busca de um mundo mais pacífico.

Infelizmente, como o próprio artista define, essa é uma versão utópica. Mas ao menos na arte é ainda possível. Quem sabe a obra suscite no público uma fome de paz no pão nosso de cada dia.

Por Lívia Lima

Livia Lima posta todas as segundas-feiras na coluna Cultura e esta semana, por falhas técnicas, não pôde assinar sua postagem.

domingo, 27 de maio de 2007

A repartição dos pães

Especial Semana do Pão

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos.

Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado – que fora da janela se balançava em acácias e sombras – eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-la na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado,ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.

Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem – menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos.

Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a bênção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...

Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.

A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos – tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca.

E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse.

Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera – mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar – um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços.

Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. 'Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.

Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.

Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tornava conta do leite.

Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra.

Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade.

E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos.

Pão é amor entre estranhos.


Por Clarice Lispector

A coluna Viagens na Maionese é publicada todos os domingos, e esta semana contou com a presença "mediúnica" de Clarice Lispector